O idiota digital
O meu texto preferido é o J4 – O ser humano preguiçoso, de Lucien Sfez.
Justificativa:
Auto-identificação, sobremaneira. A “humanização” das máquinas é mostrada de forma bem-humorada mas não menos fidedigna. O computador do usuário tanto lhe serve, tanto possui programas e arquivos por ele adorados/usados, que é como se fosse um belo pedaço do próprio ser. Qualquer problema de ordem estritamente técnica pode fundir a cabeça do usuário. Serve-lhe como uma amputação temporária. Ele se sente débil e oco. Incapaz das tarefas mais simples. Não pode mais falar com a namorada via MSN Messenger, só que se esquece do telefone. Não ouvirá as MP3 de Grateful Dead, porém sua demência o pôs cego para o detalhe de que seu som (e o CD da banda) estava ali. Seu trabalho da faculdade, agora já era; e olha que o professor tinha deixado fazer à mão (”é que não tem mais o Google para pesquisar!”). Fica-se apático, entregue. Parece o luto pelo fim de um relacionamento ou morte parental. O pior é saber disso e se deixar levar assim mesmo. O usuário se torturará e se auto-flagelará pelas supostas horas e horas perdidas até o conserto. Isso por mais que houvesse um livro encalhado na estante esperando sua leitura. Prostrar-se-á na cama, que é melhor. Usará o PC mentalmente. Mesmo que diante do Windows o sujeito seja improdutivo, a sensação de reutilizar seu micro será a de parir um – lindo – filho. A que ponto chegamos: a indolência auto-sugestionada. Cair a conexão ou desligar o aparelho numa trovoada parece – de fato – as Trevas: o retorno à Idade Média. [baseado em fatos reais]
Wormsaiboty
O capitalismo como religião
O ser humano antigo, ainda quando esteve vulnerável aos predadores usou seu psiquismo para reagir contra um ambiente indefinido, cercado de armadilhas naturais. Foi criando muros e se socializando cada vez mais, chegando à forma urbanística que caracteriza o homem moderno.
Naturalmente, o progresso material foi se transformando em social e os exemplos de melhoria na qualidade de vida das pessoas demonstraram o caráter qualitativo dos avanços científicos. Todavia, a liberdade
adquirida para a profanação das descobertas técnicas foi fruto da revolta social e do pensamento filosófico contra o milenarismo cristão.
Assim, o progresso e a religião se misturaram criando a “religião do progresso” que é o capitalismo. Este, com isso, adquire um caráter não só político e social mas também teológico . Para Max Weber, o capitalismo moderno é uma religião originária de uma transformação do calvinismo, baseada na generalização do desespero.
Segundo a religião do capital, a única salvação reside na intensificação do sistema, na expansão capitalista, no acúmulo de mercadorias e na obsessão por novas tecnologias, mas isso só faz agravar o desespero da expansão global, impossível de deter e da qual não podemos escapar. A inquietude religiosa vem, portanto, constatar o aspecto quantitativo desse sistema dinâmico.
Porém, idéias como as de Jacques Julliard refutam esse conceitos. Ele acredita na similaridade do progresso com o aperfeiçoamento infinito da espécie humana, além de relacionar a moral do cristianismo num mundo pós-cristão como algo sem valor, definindo a sociedade como atéia. Ele esquece, porém, do caráter “culpabilizador” e subconsciente que rege as relações capitalistas.
Portanto, relacionar passado, presente e futuro sob os moldes do progresso é considerarmos toda a dependência e o aprisionamento que o sistema capitalista impôs. Pois, ao invés de cultuarmos santos e deuses em quadros ou estátuas, nós valorizamos “divindades” expostas em notas que regem o sistema monetário internacional.
Isis Aguiar

