Um fato que já está envelhecendo em termos jornalísticos (sempre a maldita pressa pelo furo) não pode passar incólume pelo X-TudoTudo: “O Julgamento de Plutão”, um episódio à parte na trama da novela do horário nobre Sistema Solar:

 

Apresentemos o réu: eufemismo para Hades, Rei dos Infernos, do submundo, mundo dos mortos, das riquezas. Um dos deuses primogenitais. Irmão de outros colossais homenageados no mesmo sistema, Júpiter e Netuno, além do nanico Ceres. Vesta e Juno moram distantes. Tem histórico mulherengo e é capaz inclusive de seqüestrar as futuras namoradas nos redutos familiares. Apresentemos o crime: passou-se por alguém mais temerário do que era de fato. Houve tempos em que pronunciar Hades era considerado uma afronta, daí terem encontrado este apelido de Plutão para o líder do país para onde vão todos os do necrotério com exceção do coveiro. Por mais de meio século o meliante insinuou ser um dos grandes, um dos que mereciam ser homenageados no Sistema Solar. As autoridades viram que havia algo errado quando corpos celestes mais corpulentos começaram a aparecer aos montes, sem a “marra” do sujeitinho aqui. Logo, ou os agraciados ficavam na casa das dezenas, ou Plutão perdia seus poderes e o título de planeta, passando a invejar os demais oito, incluindo os dois irmãos. Fratricídio à vista?

 

Apresentemos o júri: um conselho de duas milhas e meia de astrônomos super-importantes do mundo terreno, o único biologicamente sustentável das cercanias.

 

E o veredicto?

 

CULPADO! Plutão é condenado a viver como planeta-anão, marginalizado na “sociedade intergaláctica”, excluído das benesses burguesas. O júri entendeu que sua postura anti-social (sua órbita era muito esquisita) não era proporcional à estatura. Que se recolha ao seu inferninho!

 

Contexto histórico: o julgamento ocorreu numa era anárquica em que os tribunais começavam a ser questionados como balança eficiente da Justiça. Com a punição de Plutão se desenha um novo quadro em que a partir de certa linha todo e qualquer réu será absolvido e que, aquém da mesma, todo réu será punido com prerrogativas suficientemente fortes: subversão em escalas cósmicas! A Inquisição tomou conta. Cacem as bruxas-planeta!

 

Mas atenção!

 

Ainda há um cartaz de procurado na parede da ala central da sede do Conselho Astronômico que julgou o caso: MOST WANTED – o marqueiteiro que ampliou tanto assim a imagem de Plutão e o transformou numa figura temida do Inferno aos Céus. Quando for encontrado e julgado, provalvelmente será jogado na mesma cela que Goebbels e o já-marcado-para-apodrecer-lá Duda Mendonça.

 

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A mistura de Hermes & Renato com faroeste numa roupagem sci-fi + Cavaleiros do Zodíaco acima foi inspirada pela coluna de Roberto Pompeu de Toledo na Revista VEJA de 23 de agosto, uma semana antes da decisão. Tomavam como certa a absolvição do criminoso. Parece que as leis neste país estão passando a valer para os antigos manda-chuva vitalícios! E você, o que achou da decisão? Queria ser um dos jurados? Queria transplantar o resultado para o Brasil, onde os mensaleiros se absolvem com a facilidade com que mentem?

 

Rafael Aguiar