
- A imprensa em Angola é muito distinta da imprensa brasileira?
Sim. Há apenas um diário, o Jornal de Angola (www.jornaldeangola.com),
controlado pelo governo. Também há uma única emissora de televisão
aberta, a Televisão Pública de Angola (TPA). Ela transmite em dois
canais, TPA 1 e TPA 2. Quem tem dinheiro pode assinar TV a cabo, com
canais do Brasil, Índia, China, EUA, Europa etc. As novelas
brasileiras fazem grande sucesso por aqui. A TPA 1, no momento,
transmite Celebridade. A única emissora de rádio com autorização para
transmitir para todo o país é a Rádio Nacional de Angola, também
controlada pelo governo.
As demais emissoras de rádio, privadas, têm alcance limitado (também
basicamente em Luanda e entorno) e o governo exerce controle sobre os
programas que transmitem. Não é raro um programa ser suspenso porque
houve críticas ao governo.
Há vários jornais semanais em Angola, mas todos têm distribuição
reduzida. São lidos basicamente na capital, Luanda. O Jornal de
Angola é distribuído gratuitamente no interior do país. As pessoas se
informam mesmo pela televisão e pelas rádios, pois mais da metade da
população é analfabeta. Em algumas províncias do interior, ainda há
muita gente com dificuldade para entender o português e só fala os
idiomas locais. A TPA e as emissoras de rádio estatais transmitem
programas falados nas línguas locais.
Como os principais veículos de comunicação são estatais, quase não há
críticas ao governo. As denúncias, quando chegam a ser publicadas, são
feitas pelos semanários ditos independentes.
Mas não há como comparar a imprensa angolana com a brasileira. O
Brasil tem uma tradição de imprensa livre desde o tempo do Império,
com exceção dos períodos da ditadura do Getúlio e do regime militar.
Angola foi controlada pelos portugueses até 1975. Depois da
independência, o país mergulhou numa guerra civil que durou até 2002,
com a morte do líder da Unita, Jonas Savimbi. Milhares de pessoas
morreram.
Além disso, a África do Sul, que não queria o MPLA (partido do
governo) no poder, invadiu Angola mais de uma vez. Os tanques
sul-africanos chegaram a ficar a cerca de 100km da capital, Luanda. E
isso nos anos 80.
Angola, na prática, foi uma das vítimas da guerra fria. Países como a
antiga União Soviética, Estados Unidos, Cuba, Inglaterra e outros
financiavam, forneciam armas e treinavam exércitos do MPLA, da Unita e
do FNLA. Os russos davam apoio aos angolanos. Aí os americanos
financiavam a Unita para impedir que Angola virasse um país comunista.
Angola é o país com maior número de minas terrestres. Ainda hoje não
se pode construir estradas nem desenvolver a agricultura em enormes
extensões de terra por causa das minas.
O trabalho de desminagem é lento e caro. Colocar uma mina terrestre
custa entre US$ 1 e US$ 10. Identificar e destruir uma mina pode
custar até US$ 1 mil. Limpar uma área de um metro quadrado (ou seja,
descobrir se ali há minas ou não) pode levar um dia inteiro. As minas
mataram e mutilaram milhares de pessoas. Vários deles podem ser vistos
pelas ruas de Luanda.
O importante é não cair na armadilha de querer analisar Angola (ou
qualquer outra país) a partir da nossa perspectiva. O processo
histórico, as pessoas, o ritmo, o jeito de pensar, de falar são
diferentes. Também não se pode chegar aqui e apenas ficar apontando o
que está errado porque não somos os salvadores da pátria. O povo
angolano é que tem de achar seu caminho. E cabe a nós respeitá-los.
- Como tem sido a sua vivência em Angola? As pessoas, os lugares, as
músicas, a comida, os filmes, os esportes, trata-se realmente de um
mundo diferente?
A vida em Angola é mais difícil do que no Brasil. Por causa da guerra,
muitos investimentos em infra-estrutura deixaram de ser feitos. A
coleta de lixo é irregular. As ruas são esburacadas, há muito
desemprego. Dependendo do lugar da cidade, faltam água e luz de duas a
três vezes por semana. É um processo de reeducação. Quando sair de
Angola, serei uma pessoa mais econômica e menos consumista. Só quando
se convive com a escassez é que se dá valor ao que temos. É comum
encontrarmos pessoas que estão há uma semana, 20 dias sem água e luz
em casa. Se você tem dinheiro para comprar um gerador, ótimo. Se não
tem, fica à luz de velas. E o banho é de balde mesmo.
A música angolana, como a africana, é ótima. Há vários ritmos como o
semba (que dizem ser o pai do samba), a massemba, kizomba, ritmos
tribais, o kuduru e vários outros.
Pela comida ainda não me aventurei muito, mas há um prato muito comum
chamado funge, à base de mandioca ou de milho. Come-se muito peixe e
frango.
Os esportes preferidos são o futebol e o basquete. A seleção angolana
de basquete é estrela de uma série de comerciais de telefone celular
na TV. Angola será sede da Copa Africana de futebol, em 2010, pouco
antes da Copa do Mundo. A seleção é conhecida como Palancas Negras. A
palanca é um antílope que só existe em Angola. Há poucos exemplares.
Quase todos morreram ou serviram de alimento durante a guerra. Agora
começam a reaparecer na província de Malange.
- Existe uma relação de intercâmbio cultural e comercial entre Brasil
e Angola? Qual a importância dessa relação e o papel da influência do
Brasil sobre Angola?
O governo brasileiro tem grande interesse em Angola. Além do petróleo,
Angola já é o segundo maior produtor da África, atrás apenas da
Nigéria, há fortes laços históricos. O governo brasileiro, pelo menos
do que vi declarações públicas do presidente Lula, está empenhado numa
espécie de resgate histórico. Também há várias cooperações técnicas
entre os dois países, com o envio de técnicos e especialistas
brasileiros para treinar os servidores públicos angolanos em
praticamente todas as áreas.
O Brasil foi o primeiro país do mundo a reconhecer a independência de
Angola, em 11 de novembro de 1975. É difícil dizer quem tem ou teve
mais influência sobre quem. Os negros do Brasil vieram basicamente da
região do que hoje é Angola. O tipo físico do negro brasileiro é o
mesmo do angolano.
Temos forte herança cultural e culinária de Angola. Como o Brasil está
mais desenvolvido que Angola (nossa última guerra foi no século XIX
contra o Paraguai. Aqui havia guerra até seis anos atrás…), é
natural que nossa influência seja mais forte. Principalmente cultural.
Milhões de angolanos assistem diariamente aos canais internacionais da
Globo e da Record. Não sei se os números são verdadeiros, mas a última
estimativa que ouvi dava conta que, dos cerca de 300 mil assinantes da
Globo Internacional, 160 mil estariam em Angola.
Isso influencia o jeito de falar, de se vestir e de se comportar dos
jovens angolanos. Não há números exatos, mas estima-se que haja pelos
menos 16 mil brasileiros vivendo em Angola. O número de angolanos no
Brasil também é enorme. Os vôos Rio-Luanda só decolam lotados.
- As diferenças culturais já resultaram em alguma gafe?
Achamos que todos falamos português, mas ao chegar aqui percebemos que
há grandes diferenças. O jeito de falar é diferente, então é comum
termos de repetir as frases duas ou três vezes para sermos entendidos.
E vice-versa. Algumas palavras também têm significado diferente. A pia
da cozinha, por exemplo, chama-se lava-loiça. Se você pedir para
alguém colocar a louça na pia, vão achar que você é maluco. Pia, para
eles, é vaso sanitário. E tem aqueles heranças portuguesas. Bicha, por
exemplo, quer dizer fila. Aqui não dizem jogar fora, dizem deitar
fora. E por aí vai. São diferenças que rendem boas risadas.
Mas cometi uma gafe durante encontro com um vice-ministro de Estado
angolano. Ele me perguntou o que eu achava da possibilidade de o
presidente Lula se reeleger para um terceiro mandato. Avaliei que não
seria bom para o país e disse que a alternância de poder era
importante para a democracia. O vice-ministro ficou em silêncio e foi
meio constrangedor. Afinal, Angola tem o mesmo presidente desde 1979 e
não há eleições desde 1992. Realmente eu não poderia ter escolhido
pior interlocutor para falar em alternância de poder. Pelo menos é uma
boa história para ser contada.
- O que você recomenda a um brasileiro que pretende ir a Angola?
Que venha. Será uma experiência única num momento muito especial do
país. Momento de reconstrução nacional, de resgate de valores
importantes como patriotismo, cidadania, unificação e cicatrização de
feridas. Mas venha com o espírito desarmado. Angola passa por grandes
mudanças. Tudo funciona num ritmo diferente. Chegar aqui imaginando
que as coisas vão acontecer como no Brasil será um erro.
Também é importante ter em mente que o custo de vida é altíssimo.
Luanda é, atualmente, uma das capitais mais caras do mundo (se não for
a mais cara). O aluguel de uma casa de dois quartos está entre US$ 7,5
mil e US$ 9 mil. E nem sempre em boas condições. O aluguel de casas um
pouco maiores começam em US$ 10 mil, US$ 12 mil. E aqui os aluguéis
são pagos com um ano de antecedência.
Há alguns sites feitos por brasileiros, portugueses e angolanos que
relatam o cotidiano dos estrangeiros em Angola. Há histórias
divertidas, tristes, inusitadas. Vale a pena dar uma navegada em
alguns deles. Nos próprios sites há links para outros bem
interessantes. Os endereços são: www.casadeluanda.blogspot.com ;
www.diariodaafrica.blosgspot.com ; www.seguindoadiante.blogspot.com e
http://afonsoloureiro.net/blog/ .
Para quem se aventurar, boa-viagem.
Perguntas elaboradas por Andrei Almeida