Carlos Alberto Jr.

- A imprensa em Angola é muito distinta da imprensa brasileira?

 

 Sim. Há apenas um diário, o Jornal de Angola (www.jornaldeangola.com),

 controlado pelo governo. Também há uma única emissora de televisão

 aberta, a Televisão Pública de Angola (TPA). Ela transmite em dois

 canais, TPA 1 e TPA 2. Quem tem dinheiro pode assinar TV a cabo, com

 canais do Brasil, Índia, China, EUA, Europa etc. As novelas

 brasileiras fazem grande sucesso por aqui. A TPA 1, no momento,

 transmite Celebridade. A única emissora de rádio com autorização para

 transmitir para todo o país é a Rádio Nacional de Angola, também

 controlada pelo governo.

 

 As demais emissoras de rádio, privadas, têm alcance limitado (também

 basicamente em Luanda e entorno) e o governo exerce controle sobre os

 programas que transmitem. Não é raro um programa ser suspenso porque

 houve críticas ao governo.

 

 Há vários jornais semanais em Angola, mas todos têm distribuição

 reduzida. São lidos basicamente na capital, Luanda. O Jornal de

 Angola é distribuído gratuitamente no interior do país. As pessoas se

 informam mesmo pela televisão e pelas rádios, pois mais da metade da

 população é analfabeta. Em algumas províncias do interior, ainda há

 muita gente com dificuldade para entender o português e só fala os

 idiomas locais. A TPA e as emissoras de rádio estatais transmitem

 programas falados nas línguas locais.

 

 Como os principais veículos de comunicação são estatais, quase não há

 críticas ao governo. As denúncias, quando chegam a ser publicadas, são

 feitas pelos semanários ditos independentes.

 

 Mas não há como comparar a imprensa angolana com a brasileira. O

 Brasil tem uma tradição de imprensa livre desde o tempo do Império,

 com exceção dos períodos da ditadura do Getúlio e do regime militar.

 

 Angola foi controlada pelos portugueses até 1975. Depois da

 independência, o país mergulhou numa guerra civil que durou até 2002,

 com a morte do líder da Unita, Jonas Savimbi. Milhares de pessoas

 morreram.

 

 Além disso, a África do Sul, que não queria o MPLA (partido do

 governo) no poder, invadiu Angola mais de uma vez. Os tanques

 sul-africanos chegaram a ficar a cerca de 100km da capital, Luanda. E

 isso nos anos 80.

 

 Angola, na prática, foi uma das vítimas da guerra fria. Países como a

 antiga União Soviética, Estados Unidos, Cuba, Inglaterra e outros

 financiavam, forneciam armas e treinavam exércitos do MPLA, da Unita e

 do FNLA. Os russos davam apoio aos angolanos. Aí os americanos

 financiavam a Unita para impedir que Angola virasse um país comunista.

 

 Angola é o país com maior número de minas terrestres. Ainda hoje não

 se pode construir estradas nem desenvolver a agricultura em enormes

 extensões de terra por causa das minas.

 

 O trabalho de desminagem é lento e caro. Colocar uma mina terrestre

 custa entre US$ 1 e US$ 10. Identificar e destruir uma mina pode

 custar até US$ 1 mil. Limpar uma área de um metro quadrado (ou seja,

 descobrir se ali há minas ou não) pode levar um dia inteiro. As minas

 mataram e mutilaram milhares de pessoas. Vários deles podem ser vistos

 pelas ruas de Luanda.

 

 O importante é não cair na armadilha de querer analisar Angola (ou

 qualquer outra país) a partir da nossa perspectiva. O processo

 histórico, as pessoas, o ritmo, o jeito de pensar, de falar são

 diferentes. Também não se pode chegar aqui e apenas ficar apontando o

 que está errado porque não somos os salvadores da pátria. O povo

 angolano é que tem de achar seu caminho. E cabe a nós respeitá-los.

 

 

 

 - Como tem sido a sua vivência em Angola? As pessoas, os lugares, as

 músicas, a comida, os filmes, os esportes, trata-se realmente de um

 mundo diferente?

 

 A vida em Angola é mais difícil do que no Brasil. Por causa da guerra,

 muitos investimentos em infra-estrutura deixaram de ser feitos. A

 coleta de lixo é irregular. As ruas são esburacadas, há muito

 desemprego. Dependendo do lugar da cidade, faltam água e luz de duas a

 três vezes por semana. É um processo de reeducação. Quando sair de

 Angola, serei uma pessoa mais econômica e menos consumista. Só quando

 se convive com a escassez é que se dá valor ao que temos. É comum

 encontrarmos pessoas que estão há uma semana, 20 dias sem água e luz

 em casa. Se você tem dinheiro para comprar um gerador, ótimo. Se não

 tem, fica à luz de velas. E o banho é de balde mesmo.

 

 A música angolana, como a africana, é ótima. Há vários ritmos como o

 semba (que dizem ser o pai do samba), a massemba, kizomba, ritmos

 tribais, o kuduru e vários outros.

 

 Pela comida ainda não me aventurei muito, mas há um prato muito comum

 chamado funge, à base de mandioca ou de milho. Come-se muito peixe e

 frango.

 

 Os esportes preferidos são o futebol e o basquete. A seleção angolana

 de basquete é estrela de uma série de comerciais de telefone celular

 na TV. Angola será sede da Copa Africana de futebol, em 2010, pouco

 antes da Copa do Mundo. A seleção é conhecida como Palancas Negras. A

 palanca é um antílope que só existe em Angola. Há poucos exemplares.

 Quase todos morreram ou serviram de alimento durante a guerra. Agora

 começam a reaparecer na província de Malange.

 

 

 - Existe uma relação de intercâmbio cultural e comercial entre Brasil

 e Angola? Qual a importância dessa relação e o papel da influência do

 Brasil sobre Angola?

 

 O governo brasileiro tem grande interesse em Angola. Além do petróleo,

 Angola já é o segundo maior produtor da África, atrás apenas da

 Nigéria, há fortes laços históricos. O governo brasileiro, pelo menos

 do que vi declarações públicas do presidente Lula, está empenhado numa

 espécie de resgate histórico. Também há várias cooperações técnicas

 entre os dois países, com o envio de técnicos e especialistas

 brasileiros para treinar os servidores públicos angolanos em

 praticamente todas as áreas.

 

 O Brasil foi o primeiro país do mundo a reconhecer a independência de

 Angola, em 11 de novembro de 1975. É difícil dizer quem tem ou teve

 mais influência sobre quem. Os negros do Brasil vieram basicamente da

 região do que hoje é Angola. O tipo físico do negro brasileiro é o

 mesmo do angolano.

 

 Temos forte herança cultural e culinária de Angola. Como o Brasil está

 mais desenvolvido que Angola (nossa última guerra foi no século XIX

 contra o Paraguai. Aqui havia guerra até seis anos atrás…), é

 natural que nossa influência seja mais forte. Principalmente cultural.

 Milhões de angolanos assistem diariamente aos canais internacionais da

 Globo e da Record. Não sei se os números são verdadeiros, mas a última

 estimativa que ouvi dava conta que, dos cerca de 300 mil assinantes da

 Globo Internacional, 160 mil estariam em Angola.

 

 Isso influencia o jeito de falar, de se vestir e de se comportar dos

 jovens angolanos. Não há números exatos, mas estima-se que haja pelos

 menos 16 mil brasileiros vivendo em Angola. O número de angolanos no

 Brasil também é enorme. Os vôos Rio-Luanda só decolam lotados.

 

 

 

 - As diferenças culturais já resultaram em alguma gafe?

 

 Achamos que todos falamos português, mas ao chegar aqui percebemos que

 há grandes diferenças. O jeito de falar é diferente, então é comum

 termos de repetir as frases duas ou três vezes para sermos entendidos.

 E vice-versa. Algumas palavras também têm significado diferente. A pia

 da cozinha, por exemplo, chama-se lava-loiça. Se você pedir para

 alguém colocar a louça na pia, vão achar que você é maluco. Pia, para

 eles, é vaso sanitário. E tem aqueles heranças portuguesas. Bicha, por

 exemplo, quer dizer fila. Aqui não dizem jogar fora, dizem deitar

 fora. E por aí vai. São diferenças que rendem boas risadas.

 

 Mas cometi uma gafe durante encontro com um vice-ministro de Estado

 angolano. Ele me perguntou o que eu achava da possibilidade de o

 presidente Lula se reeleger para um terceiro mandato. Avaliei que não

 seria bom para o país e disse que a alternância de poder era

 

 importante para a democracia. O vice-ministro ficou em silêncio e foi

 meio constrangedor. Afinal, Angola tem o mesmo presidente desde 1979 e

 não há eleições desde 1992. Realmente eu não poderia ter escolhido

 pior interlocutor para falar em alternância de poder. Pelo menos é uma

 boa história para ser contada.

 

 

 - O que você recomenda a um brasileiro que pretende ir a Angola?

 

 Que venha. Será uma experiência única num momento muito especial do

 país. Momento de reconstrução nacional, de resgate de valores

 importantes como patriotismo, cidadania, unificação e cicatrização de

 feridas. Mas venha com o espírito desarmado. Angola passa por grandes

 mudanças. Tudo funciona num ritmo diferente. Chegar aqui imaginando

 que as coisas vão acontecer como no Brasil será um erro.

 

 Também é importante ter em mente que o custo de vida é altíssimo.

 Luanda é, atualmente, uma das capitais mais caras do mundo (se não for

 a mais cara). O aluguel de uma casa de dois quartos está entre US$ 7,5

 mil e US$ 9 mil. E nem sempre em boas condições. O aluguel de casas um

 pouco maiores começam em US$ 10 mil, US$ 12 mil. E aqui os aluguéis

 são pagos com um ano de antecedência.

 

 Há alguns sites feitos por brasileiros, portugueses e angolanos que

 relatam o cotidiano dos estrangeiros em Angola. Há histórias

 divertidas, tristes, inusitadas. Vale a pena dar uma navegada em

 alguns deles. Nos próprios sites há links para outros bem

 interessantes. Os endereços são: www.casadeluanda.blogspot.com ;

 www.diariodaafrica.blosgspot.com ; www.seguindoadiante.blogspot.com e

 http://afonsoloureiro.net/blog/ .

 

 Para quem se aventurar, boa-viagem.

 

Perguntas elaboradas por Andrei Almeida