
Ela usava o sobrenome do seu marido como se fosse o seu, enchia a boca para falar. Aquilo lhe dava uma falsa sensação de poder, era um momento inconsciente de ser alguma coisa, que ela não sabia o que. Talvez para preencher o vazio que era sua vida, talvez por pensar que o seu marido fosse algo melhor, do que ela. No fundo estava enganada, mas nem tinha idéia desse tal “Segredo”, que todos nós eramos iguais, que cada um tinha um potencial imensurável. Talvez nem quisesse saber, já tinha passado tanto tempo, que talvez ela já tivesse esquecido de si mesma, não sabia mais quem era ela.
Havia sim um pedaço enorme do seu marido em sua personalidade, em suas bactérias. Dizem que quando convivemos muito com uma pessoa e temos, obviamente, a mesma alimentação, o nosso DNA se parece, pois ele é formado em grande parte pelas nossas bactérias. Sua bactérias eram as mesmas, eles comiam juntos há décadas, sua personalidade também, “quem ficou com as bactérias de quem?”, ela pensava. Suas bactérias eram definitivamente do seu marido, nem aquilo sobrara para ela. Como era triste pensar nisso tudo, talvez fosse melhor esquecer, mas era exatamente o que ela fizera neste últimos 30 anos. Agora era a sua hora, o seu momento, as suas bactérias! Ela ia dar a volta por cima, iria mudar por completo, a sua alimentação, se fosse necessário.
O sobrenome era algo poderoso, vinha com o seu nome, era um pedaço da sua família, da sua história e ela havia abdicado por ele, por seu marido. Será que valia à pena, a entrega, o desapego? Será, que no seu casamento, não havia perdido um pedaço de si e porque afinal sentia orgulho daquilo? Não conseguia entender, no fundo, não fazia sentido, mas fazia para o resto do mundo, para a sociedade, para a sua mãe. Questionar aquilo parecia inútil, iriam rir da sua cara, iriam dizer que aquilo acontecia há séculos, milénios. Tanto faz, queria algo diferente, queria mudar.
Planejou tudo, e esperou, nervosamente, pelo seu marido chegar do trabalho. O tempo demorava a passar, já podia escutar o som do relógio da parede, “tic tac, tic tac”. Faltava pouco, ele nunca se atrasava, ela respirou fundo e escutou o barulho lá fora, a porta se abriu lentamente, ele surgiu e olhou para ela com um olhar de dúvida. Naquele momento, ela se matou por dentro, mais uma vez, engoliu seco seus sonhos e ambições, lembrou que nunca havia trabalhado na vida, que era dependente emocionalmente, que a vida era difícil como seu pai lhe disse, que era melhor aquilo do que nada, e então, e mostrou o seu melhor sorriso e disse “oi meu amor”! No dia seguinte atendeu o telefone com o seu melhor personagem, aquele que tinha sobrenome do seu marido, mas agora sim sentia poder.
Roberto Pantoja
Empreendedor, escritor, especialista em marketing online, mídias sociais e proprietário da
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