Como a vida é fulgás. “Podia meter uma bala na sua cabeça”! Cinquenta e poucos anos, a maioria dos cabelos já cairam. Quase um careca, quase. Uma BMW branca, provavelmente zero. Uma fechada, luz alta, começa uma perseguição. Entra no estacionamento pago, dá meia volta, para em frente. “Você é louco? Me fechou”! Não sai do carro, olha feio, uma criatura patética. Um pouco de arrogância, um pouco de estupidez. Uma barriga respeitável. Em resposta uma cara de dúvida, “o que diabos é isso”? Mas em silêncio, só em pensamento. Sem resposta, sem a sua resposta. Fica a raiva, liga o carro novamente e vai embora. Sai do estacionamento. Pago. Andou por um quilômetro sem razão, sem uma razão. Mudou seu rumo, desfez seu caminho. Entrou num estacionamento pago, e não ficou lá, nem ia. Em troca de quê? Fica a pergunta. Fica a dúvida. Engraçado, trabalhamos trinta, quarenta anos. Os cabelos caem, o corpo cai. Ao custo de muito suor (ou pouco) compramos um bom carro. “Esse é o meu carro.” Quanto trabalho, chegou finalmente a recompensa. Tanto trabalho, tanto esforço, agora sim. Uma casa linda, um carro dos sonhos. “Se você batesse no meu carro…”! Pra quê? Pra quê tudo isso? Pra quê um carro dos sonhos, pra quê uma casa com piscina? Pra quê? Pra desviar um quilômetro? Perder cinco minutos da minha vida? Tenha dinheiro, ganhe muito dinheiro. Mas só pra você lembrar que ele não faz a mínima diferença para você. Um bem material não vale de nada, tenha muitos bens, mas não dê valor a nenhum deles. Seja feliz, só isso. Transmita isso. Passe isso. Fique rico, só pra lembrar que você não precisava. E se baterem no seu carro, e daí? É só um carro. Tenha dinheiro, tenha um carro, tenha um seguro e pronto. A vida é mesmo fulgás.
Roberto Pantoja (Demorô)