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O Estado mais uma vez tirou a responsabilidade das costas e encheu a cidade com cartazes e placas: não dê esmola, dê cidadania. Quando algum mendigo vier me pedir um trocado, o que devo dar? Um sorriso? Um copo de leite? Um livro? E o que ele vai fazer com isso? Perder um dedo e virar o próximo presidente do Brasil? Acho que não, na verdade não muda muita coisa. Os problemas são bem mais complexos do que imaginamos, temos uma visão superficial da miséria brasileira. 

 

O que é cidadania? Segundo a melhor e mais duvidosa enciclopédia do mundo, a Wikipédia, cidadania é: “a condição da pessoa natural que, como membro de um Estado, encontra-se no gozo dos direitos que lhe permitem participar da vida política.” Muito vago? Também não entendi nada. 

 

O que devo fazer então? Segundo meu primo: “Vai arruma um emprego!”. Quando penso nisso lembro de uma ex-namorada do meu irmão que veio passar uns dias na minha casa, ela era francesa. Um dia sai com ela, paramos em um sinal de trânsito, me pediram dinheiro, não abri a janela, ela perguntou porque, disse que ele devia arrumar um emprego e ela disse: “Emprego? Que emprego? Como ele vai arrumar um emprego?”. Fiquei calado, pensativo, com vergonha. Na hora lembrei da música “Mágico de OZ” dos poetas Racinais Mc´s: “rezei pra um moleque que pediu, qualquer trocado, qualquer moeda, me ajuda tio? Pra mim não faz falta, uma moeda não neguei, e não quero saber, o que que pega se eu errei, independente a minha parte eu fiz, tirei um sorriso ingênuo, fiquei um terço feliz”. A partir daquele dia sempre que posso dou esmola. 

 

Ví na TV um antropólogo afirmando que acreditamos (a sociedade) que só porque alguém não tem dinheiro, não tem direito de escolha. Exemplo? Quando entrego uma pizza de peperoni para um mendigo e ele não aceita porque prefere marguerita, ficamos irritados, com raiva. O fato dele não ter dinheiro lhe tira o direito de gostar ou não de alguma coisa? Nunca esqueci isso. Que diferença existe entre você e ele? 

 

Me perturba o descaso, meu, seu, para com a comunidade. Esquecemos do próximo, me assusta que muitas vezes esqueço de pessoas tão próximas, como as que trabalham na minha casa. Estranho uma pessoa que veio da França me mostrar a realidade brasileira, ela tem razão, não existe emprego, oportunidade para um morador de rua. Você tem amigos universitários e desempregados, quem dirá esses coitados. Da próxima vez não dê cidadania, dê esmola. 

 

Demorô (Roberto Pantoja) 

Sabe, cinco anos atrás eu poderia ser chamado de cidadão exemplo! Parava no sinal vermelho e na faixa de pedestre durante a madrugada. Dava carona a quem precisasse e no horário que fosse. Se tivesse um carro estragado, era o primeiro a parar e prestar socorro. Mudei muito. Nunca mais me atrevo a fazer isso. Não que não tenha mais coração ou tenha me tornado um monstro. Mas porque agora tenho medo. Brasília se tornou mais uma cidade brasileira, violenta! Assaltos e assassinatos caíram na rotina, assim como os engarrafamentos. A violência acaba, mesmo que de maneira indireta, com a cidadania. Afinal a partir do momento que corro o perigo de morte por ser educado, não existe mais motivo para tal. É o instinto básico, minha sobrevivência! Antes ele do que eu. Então agora vocês sabem que mesmo que eu queira ajudar alguém não vou fazê-lo. Logo se você aparecer gritando no meio da rua e entrar na frente do meu carro, provavelmente vai sair voando por cima do capô. 

 

Roberto Pantoja (Demorô)