Dedicado especialmente aos moradores da capital federal do Brasil: será que trabalhar parasitando o Estado e usufruindo de mordomias praticamente perenes é tão bom quanto o sonho quer que pareça? E os outros elementos de uma existência? Esqueça dinheiro e estabilidade por um tempo. Lembre que o ser humano possui um fogo interior que não pode de forma alguma ser apagado sob pena de… de quê? Éramos selvagens, vivíamos em ambientes onde qualquer tipo de estabilidade duradoura era difícil de se cogitar… Será, entretanto, que nos habituamos a nossa própria criação chamada cidade grande? É possível agüentar um trabalho sem prazer uma vida toda? Ou ainda: levar pé na bunda é uma coisa que nenhum orgulho deveria engolir? Metade das empresas abertas no país fale então… Então, O QUE É MELHOR AFINAL? Ser funcionário público ou dono de um negócio/empregado numa empresa privada?
Tudo começa com o resultado das Eleições. Espalharam um factóide: Alckmin aboliria concursos públicos. A despeito do absurdo que isso implica (o país pararia, ninguém em sã consciência iria fazê-lo e sequer dispõe dos instrumentos necessários para tanto!), disseram que ele poderia estreitar o número de vagas e que Lula, essa reedição do Pai dos Pobres, iria ampliar a disponibilidade de vagas. A alegria da galera, a fartura dos brasilienses!
Primeiro, vamos separar o joio do trigo: sua felicidade é sua felicidade. Porém, esse ciclo virtuoso “estuda, estuda, estuda, passa num concurso e ganha ‘mesada’ do Estado para o resto da vida” não é sustentável a longo prazo. Seus filhos e netos não terão a mesma bonança. Há um problema infra-estrutural que precisa ser sanado, e o número de empregados do governo é, de fato, gordo. Como sabemos, o estereótipo do funcionário público é o do malandro que ganha bem, tem plano de saúde e mil regalias, incluindo trabalhar uma miséria, tanto em termos quantitativos quanto qualitativos – e como se não bastasse, o pouco que faz, faz mal-feito (não generalizo: meus pais são funcionários públicos e alguns leitores do artigo também, provavelmente, mas me refiro à média). O Brasil – o Estado – é gastador e explorador. Quando não puder extorquir mais nada da população em impostos, sufocar as micro e pequenas empresas com taxação absurda e, mais, pagar os velhos, e se a reforma da Previdência ainda não tiver saído… aí estoura a bolha. E nada do seu filho fazer provinha para a CAESB, o Ministério, a Câmara, porque esse sistema estará em frangalhos…
Reduzir o número de nomes que constam da folha de pagamento dos órgãos estatais é somente o primeiro passo. Outros não devem incluem a redução do piso ou teto salariais. Quem sabe uma “meta de produtividade”. Aceitável?
“Autor, e eu com essa problemática toda? Não terei filhos!”
Até que trepe a última vez e a camisinha não fure, nada feito. Como você é um coelhinho e irá repetir suas façanhas libidinosas mais um punhado de vezes, acho que tenho sinal verde para continuar…
Outra calúnia divulgada a respeito de uma possível gestão Alckmin, antes do segundo turno: ele iria privatizar o país. Ó! Morte! Como se sangrar o Erário como o Mensalão fez não fosse grave a ponto de congelar um Estado com CPIs! Mas tudo bem, concentremo-nos apenas nas privatizações (calma, não estou xingando; esta é uma palavra como qualquer outra):
Quando uma entidade precisa lutar para sobreviver ela oferece melhores serviços. O brasileiro é de formação covarde, prefere uma carreira pública sem percalços, tem medo de abrir uma empresa (sim, a burocracia e o histórico atrapalham, porém é preciso ser empreendedor se se quiser algo mais que uma Previdência rachada para dar de comer na velhice), verdadeiro pavor de votar em quem defende ou já fez privatização… Lembre-se: na nau de Pedro Álvares Cabral vieram os piores portugueses da virada do século XV para o XVI; o índio brasileiro vivia, evolutivamente, como o homem da idade da pedra lascada; os imigrantes europeus que cá aportaram no século XX eram os de situação econômica mais grave na Europa. Somos todos indolentes de sangue. Queremos sempre a mãozinha do Estado nos acariciando. Se ele desse conta, tudo bem – só que não é o caso. Não acham que é hora de passar esse bastão para a iniciativa privada? Será que o leitor que mudou de moradia há 3 ou 4 anos já teria instalado um telefone fixo se o setor ainda fosse estatal?
Uma vez defendi essa tese num e-mail que era compartilhado pela minha turma de Jornalismo numa das disciplinas. Um amigo nosso, célebre funcionário público (que pula de cargo em cargo, cada vez mais abonado) da classe, rebateu com a seguinte prerrogativa:
“Não me considero de forma alguma um covarde por ter escolhido o serviço público. Aliás, pelo contrário, pois, por conta da alta concorrência, é necessário ter muita coragem para encarar um concurso público atualmente. Achei totalmente descabida tua análise a respeito das pessoas que optam por esse caminho. O raciocínio é bem simples: se eu posso ter um trabalho que garanta meu sustento, dê um certo nível de conforto, sem precisar levar trabalho para casa ou trabalhar em fins de semana, por que eu optaria por trabalhar em uma empresa privada (ou mesmo optaria por ser dono de uma empresa), sem garantia do amanhã e com a pressão de produzir sempre mais e ser sugado até o limite?! Já tive que me submeter a isso em mais de uma empresa e decidi que aquela não era a vida que eu merecia. Tu fizeste uma generalização infeliz. Geralmente, as generalizações são infelizes e injustas. Como exemplo: não é porque o execrável Bush (na minha opinião, uma das figuras mais nefastas da atualidade) possui um jeito arrogante de governar que todos os estadunidenses devem ser considerados pessoas do mal – muitas vezes, ouve-se esse discurso. Da mesma forma, não se deve generalizar e culpar o povo alemão pelas atrocidades cometidas por Hitler. E que papo é esse de ‘porém é preciso ser empreendedor’?! Talvez seja influência da mídia, por meio dos anúncios como ‘seja alguém na vida’ (imagem: um idiota num automóvel caro e uma mulher lindíssima acenando para o indivíduo motorizado), ‘tenha o carro dos seus sonhos’, ‘com Credicard você pode’ (desconfio que seja possível comprar até pessoas). Definitivamente, eu não me rendo a esse discurso consumista: essa relação de igualdade consumo=bem-estar não me serve!”
Desculpem por alongar tanto as coisas, mas expor o ponto de vista dele foi extremamente necessário. Na tréplica, fiiz questão de deixar claro que o culpado não é ele, que seria um covarde, tampouco nosso pai ou nossa mãe: o problema é estrutural. Essa covardia corre em nosso sangue (no de todos que são socializados por estas bandas) há séculos. O erro está no que ele disse do terceiro setor: nós somos obrigados a escolher a vida pública porque o terceiro setor ou paga mal ou se mostra instável. Mas continuar dando voto a governos paternalistas não vai mudar essa condição. Uma condição de restrição. Muito bom para os que conseguirem passar pelo funil, péssimo para os demais. E quantos não são?
O que dizer de Economias desenvolvidas onde o corporativismo é tão seguro quanto o funcionalismo público brasileiro? Nelas, tanto faz escolher uma carreira quanto outra – geralmente é sadio optar pelas duas (já que abrir um negócio não é o inferno que é aqui). No entanto essas nações (principalmente na Europa escandinava) não nasceram privilegiadas. Já estiveram na situação precária brasileira e muito sofreram, muito lutaram para chegar onde estão. O resultado é que os descendentes desses “bravos” colhem os frutos das sementes então plantadas: acabou o medo de ser empreendedor!
O problema é estrutural e sua resolução é de longo prazo, contudo, se você tiver peito para arriscar, por que não? Além disso, comece escolhendo melhor nossos governantes, essa é a saída!
Em uma coisa nosso amigo estava certo: os brasileiros não passam de uns “carrólatras”!
Rafael Aguiar