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Naomar Almeida

- Em que consiste o REUNI? É uma mudança verdadeira? 

 

Creio que sim. O REUNI é um programa do Governo Lula de reestruturação e expansão das universidades federais que faz parte do PAC da Educação, lançado em abril deste ano. É o maior plano de investimento na universidade pública brasileira, depois de uma década inteira de apoio ao setor privado de ensino. As universidades federais vão receber um aumento nos recursos de custeio e de pessoal. Mais de 5 bilhões em cinco anos. Além disso, vamos aplicar mais de dois bilhões em obras e instalações para renovar o parque tecnológico de ensino. Em troca, teremos que abrir mais vagas, principalmente em cursos noturnos, alcançando a média de 18 alunos por docente, e teremos que reduzir a evasão, que atualmente é vergonhosamente alta. A meta nesse caso é atingir uma taxa de formatura de 90 % no final do programa. Mas a mudança verdadeira está na abertura de novas modalidades de cursos, como novos tipos de cursos de tecnólogo e os Bacharelados Interdisciplinares em Ciências, Humanidades, Artes e Saúde, sempre como opção. 

 

- Isto não afetaria a produção científica? Se não, em que medida? 

 

De modo algum. Possivelmente a produção científica das universidades federais vai aumentar com a contratação de novos professores e com os incentivos de integrar a graduação com a pós-graduação. A pesquisa será fomentada principalmente nos Bacharelados interdisciplinares, que é um sistema de ciclos de formação, com flexibilidade e mobilidade de escolha dos campos de estudos. Só pra dar um exemplo disso. O Brasil é o 15º. país em produção científica no mundo. Todos, exceto a Rússia, que têm maior produção científica adotam, desde certo tempo, sistemas de ciclos similares ao Bacharelado Interdisciplinar. Afinal, pesquisa é criatividade e flexibilidade.

 

- O REUNI já é uma mobilização nacional? De um novo modelo? 

 

É verdade. Começou com muitas dúvidas, os reitores das federais estavam inicialmente desconfiados da capacidade do Governo Federal de bancar os recursos necessários para tal revolução no ensino superior. Com a assinatura do decreto presidencial em abril de 2007, a colaboração dos reitores na regulamentação da proposta resultou em uma grande mobilização. Houve um primeiro prazo, em 29 de outubro, que foi cumprido por 36 das 53 universidades federais. Quem entrou nesse prazo, poderá receber os financiamentos a partir de janeiro 2008. Os que decidiram esperar mais, ainda têm cinco anos para fazê-lo. Só que ninguém é bobo de esperar muito. Todas as grandes universidades, inclusive a nossa UFBA, entraram na primeira hora, apesar de todo o boicote de minorias estudantis, em todo o país. 

 

- Os ensinos fundamental e médio são desprezados demais pelo mercado de trabalho. O aumento da escolarização superior vai ajudar a resolver esse problema? 

 

Concordo. Hoje em dia, ninguém mais oferece empregos de renda satisfatória a quem só tem o segundo grau. Cada vez mais se exige o terceiro grau, porém a baixa qualidade de muitas instituições particulares não garante a inserção imediata no mercado de trabalho. Por isso o REUNI também aparece como uma perspectiva de revolucionar a relação universidade-mercado com a abertura maciça de vagas universitárias públicas, em instituições que se destacam pela qualidade do ensino. 

 

- Qual é o verdadeiro papel das universidades e quando as universidades brasileiras irão começar a cumpri-lo? 

 

A universidade é uma instituição muito curiosa. Seu primeiro papel foi preservar a cultura medieval da Igreja Católica Romana, porém fora dos espaços sagrados. Depois, agregou-se o papel de formador de profissionais, mão de obra qualificada para a Revolução Industrial. No século XIX, depois da reforma de Humboldt na Alemanha, instalou-se a universidade de pesquisa, centro da produção do conhecimento científico e tecnológico. Somente na década de 1960 foi que a universidade começou a se preocupar com o seu papel social, com as revoltas estudantis em muitos países do mundo. No que se refere ao papel histórico e social, as universidades brasileiras estão muito atrasadas, com defasagem tecnológica e, pior, alienação cultural. Espero que o REUNI e as mudanças que ele trará contribuam para este desejado cumprimento de papel da mais antiga instituição do saber ainda existente no mundo. 

 

- Em sua percepção a educação à distância foge da finalidade de socialização da educação? 

 

Há controvérsias importantes sobre a chamada EAD. Muitos acham que ela não deve ser uma proposta de completa auto-aplicação da aprendizagem porque assim fomenta o egoísmo e o isolamento, traços da modernidade urbana que devem ser superados. De fato, quem se isola na frente dos computadores perde a capacidade de vida social plena, perdendo também a atitude crítica e criativa perante a vida. Eu creio que se deve qualificar de que EAD se está falando, porque é possível combinar os processos de auto-instrução com momentos de reconcentração e avaliação mais socializada. De todo modo, a aplicação intensiva de tecnologia deve ser a vertente do futuro da educação superior. 

 

Perguntas elaboradas por Andrei Almeida 

Naomar Almeida

Perguntas relacionadas ao futuro do ensino no Brasil:

- O que o senhor acha do ensino fundamental e médio brasileiro (público e particular)? O que é necessário além de altos investimentos?

Há um consenso no país: o ensino de primeiro e segundo graus é de baixíssima qualidade na escola pública e de ótimo nível na escola privada. Na escola pública, não vai ser necessário somente maiores investimentos. Vai ser preciso melhores investimentos. Além da universalização do acesso, que parece estar sendo atingido, é preciso investir na qualidade do ensino, na formação de professores e no reequipamento das escolas.

- Como conciliar qualidade de ensino com arrocho de verbas?

Com mais controle da corrupção e da fraude. Os políticos, principalmente os gestores municipais, vão ter de descobrir que deixar de alfabetizar uma criança e reduzir as chances de formação de um jovem constituem crimes tão sérios quanto latrocínio ou tráfico de drogas.

- Qual a solução para o ensino superior se tornar realmente público, ou

seja, para todos?

Ampliar as vagas de vestibular, melhorar as instalações das universidades públicas, pagar melhor aos professores e, principalmente, aumentar a eficiência e a qualidade da gestão acadêmica. Quando a escola pública superior estiver em boas condições, então o setor privado fará seu verdadeiro papel de eixo complementar.

- Com tantos anos de experiência, o que o senhor recomendaria para um

jovem? O que seria ideal para sair da universidade empregado?

Claro que sair da universidade empregado é o sonho de todos os que nela entram. O meu conselho é ficar atento às chances que sempre aparecem e começar a trabalhar cedo, desde o começo do curso superior, buscando estágios e treinamentos. Além das oportunidades que sempre aparecem, acredito muito nas oportunidades criadas pelo empenho de cada um. Cabe construir o próprio caminho. Bill Gates não será o último a abrir um espaço novo ainda nos bancos universitários.

- Na sua opinião, existe no Brasil alguma profissão que garanta uma vida

financeira tranqüila?

Não. Neste mundo globalizado e cada vez mais inseguro, todas as profissões são fonte de inquietação para o profissional. Aliás, retifico. Sempre foi assim, mesmo antes da velocidade da vida moderna. O bom profissional tem que ser inquieto para ser competente e criativo. A tranquilidade absoluta não é fator que conduz ao progresso.

Perguntas Elaboradas Por Andrei Almeida & Roberto Pantoja