Hoje aconteceu um fato engraçado. Lá estava eu almoçando antes de voltar ao trabalho, enquanto um casal sentado na mesa ao lado discutia a relação. Ambos estavam se queixando de que eles não eram mais os mesmos e que não estavam mais satisfeitos com a companhia um do outro. Aquela discussão me chamou a atenção, pois fiquei me questionando sobre quantas pessoas já viveram ou vivem presos nessa mesma situação.
As pessoas em geral, independente de classe social, credo ou cor, constroem ao longo da vida lógicas afetivas de conduta, o que explica e dá sentido para as nossas relações e para a maneira como nos relacionamos. Tudo funciona como um modelo de chave e fechadura, ou seja, cada chave abre determinada fechadura. Assim são as relações, elas começam de alguma forma e em algum momento. De acordo com a vontade de ambos (chave e fechadura) essa relação se desenvolve e toma um rumo. Sendo assim, acredito que nada acontece por acaso e se por acaso isso for possível, existe a sincronicidade, termo com um significado que me permite repetir que nada acontece por acaso.
Talvez eu não seja tudo aquilo que você imaginava que eu fosse.
Talvez eu não seja tudo aquilo que você gostaria que eu fosse.
Muitas vezes nem percebemos, mas se pararmos um pouco para prestar atenção nas diversas relações que estabelecemos, possivelmente iremos perceber que as histórias por mais que comecem de uma forma muito específica, em cada um desses diversos casos, terminam de uma forma muito parecida. Será que a fulana é tão parecida com a siclana? Elas nem ao menos se conhecem! Bom, o que importa é que nós somos os mesmos e buscamos a mesma fechadura (pessoas com lógicas afetivas de conduta semelhantes com outras que estabelecemos relações anteriormente). Buscamos alguém que nos complemente.
Talvez você não seja tudo aquilo que imaginei que você fosse.
Talvez você não seja tudo aquilo que eu gostaria que você fosse.
O que quero mostrar após falar sobre tudo isso é que existe uma saída, que pareceu sempre estar debaixo do nariz e nem percebemos que estava ali. A saída é ser autêntico desde o início, aprender a trocar, a lembrar que aquela outra pessoa também constrói expectativas e que ela também tem seus desejos.
Os dois brigavam e estavam aborrecidos. Estavam tão preocupados em realizar os próprios desejos e ficarem satisfeitos, que esqueceram de perguntar se o outro estava satisfeito.
Precisamos lembrar que não podemos cobrar ou exigir das pessoas mais do que elas conseguem dar. Se eu sou uma pessoa fria, com dificuldades de demonstrar carinho e afeto, será difícil manter uma relação com alguém que exige que eu seja atencioso e carinhoso em demasia. Podemos tentar respeitar e aceitar aquilo que as outras pessoas conseguem nos oferecer, assim, elas também poderão respeitar e aceitar o que nós temos para oferecer.
As relações existem para que possamos estabelecer trocas, para que possamos criar juntos, devendo sempre ser uma nova relação com cada novo indivíduo, pois as pessoas são diferentes e por isso demandam relações distintas. Se continuarmos seguindo o mesmo padrão nas relações, certamente saberemos onde elas irão dar. Cabe a cada um decidir aonde quer chegar. Contradizendo uma famosa frase: O céu não é o limite. O limite está dentro de nós.
Kayano é Psicólogo, ator e está concluindo um curso de formação em Psicodrama.
Kayano